[RESENHA] Kindred-Laços de Sangue


Imagem: Ivonísio Mosca 
Depois de muito tempo sem postar, por conta das atividades acadêmicas, venho com a resenha de um livro incrível, que me fez sair da minha zona de conforto e que me confrontou com muitas reflexões importantes e necessárias. Sim, estamos falando de Kindred-Laços de Sangue, da escritora Octavia E. Butler, e que foi lançado pela Editora Morro Branco (uma edição linda, por sinal).

Kindred-Laços de Sangue nos apresenta a história de Dana, uma mulher de 26 anos, escritora e que acabou de se mudar para uma casa própria com seu marido, Kevin. Enquanto desarruma as caixas repletas de pertences, Dana começa a sentir uma tontura intensa, de maneira que o mundo a sua volta começa a desaparecer. Quando desperta, Dana não está mais em sua casa, mas em um descampado próximo a um lago, onde um menino ruivo está se afogando. Esse é o 1° chamado de Rufus.

Logo que consegue salvar o menino ruivo e desconhecido, Dana se vê sob a mira de uma espingarda, o que a faz voltar para a sua casa (literalmente!). E, ao retornar, ela percebe que o que durou alguns minutos para si passou em fração de segundos para Kevin, que havia ficado do outro lado do tempo corrente.

E o que parecia impossível realmente começa a acontecer com Dana: ela consegue viajar no tempo, mais especificamente para o ano de 1819. O que não seria nenhum problema, se a protagonista não estivesse viajando para o Sul Escravocrata dos EUA, em um momento pré-guerra, sendo ela mulher e negra.
“Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco.”
O livro é dividido em 8 partes, que são fundamentais para ilustrar a trama, as viagens no tempo realizadas por Dana, as transformações que cada viagem causará em nossa protagonista, assim como nos demais personagens. Porque uma coisa é fato: há entre Dana e Rufus uma ligação importantíssima e fundamental para a existência dos dois.

A trama é repleta de personagens, cada qual com o seu grau de relevância e atuação no desenrolar da saga de Dana e de todos que vivem na fazenda de Tom Welyn, o pai de Rufus. Com destaque, vamos encontrar Dana (personagem central da história), Kevin (o marido branco de Dana), Rufus (filho do senhor de escravos e ancestral de Dana), Alice (negra, escrava e ancestral de Dana), Tom Welyn (dono da fazenda) e Tia Sarah (a cozinheira/governanta da fazenda).

Não é possível enumerar as qualidades e os defeitos de cada personagem, pois as cenas e os capítulos falam por si só. Eles nos conduzem aos sentimentos ali compartilhados de maneira crua e intensa, sem nenhuma ressalva. Mais do que uma história sobre viagem no tempo, Kindred-Laços de Sangue é uma trama sobre a escravidão sem nada romanceado. É pura, é verdadeira e é dolorosa.
“Às vezes, eu escrevia coisas porque não conseguia dizê-las, não conseguia entender meus sentimentos em relação a elas, não conseguia mantê-las presas dentro de mim. Era um tipo de escrita que eu sempre destruía depois”. 
O que torna a obra de Octavia E. Butler tão importante e incrível? Ela dá voz a uma classe submissa, que viveu durante muito tempo à margem, que foi crucial para a manutenção das grandes sociedades, mas que nunca recebeu o seu devido valor. Ela nos faz questionar o preconceito, a submissão, o ódio, as questões de gênero, a miséria da alma humana e da moral não apenas nas relações branco-negro, mas também negro-negro. Na sociedade como um todo.

Gostaria aqui de elencar alguns momentos que me fizeram refletir bastante:

Eram entregues bíblias com leituras e parábolas que buscavam disciplinar os negros diante dos brancos, de forma que aqueles fossem obedientes a estes. Assim, a escravidão encontrava legitimidade em vários setores, principalmente na Igreja, não se restringindo apenas ao âmbito legal. 

Dana é uma mulher do século XX, escritora, letrada e dona de si. Quando ela surge no mundo de Rufus e Tom Welyn, acaba se tornando um perigo ambulante para a classe dominante dali, afinal ela era “uma preta médica, preta que lê, preta educada, preta branca”. Os negros que liam desempenhavam um papel de perigo para os senhores de escravos, afinal, os brancos dominavam pela lei e pela força, mas não pela intelectualidade. Havia ainda uma espécie de repressão dos próprios negros escravos, que viam tal educação e cometimento como uma forma de concordância com o que era realizado contra eles.

3   O personagem de Rufus irá nutrir amor por uma das suas escravas, Alice, o que acaba sendo inaceitável para ele próprio. Ao longo das páginas, vamos percebendo a violência, as relações abusivas e os estupros que eram cometidos por brancos contra as mulheres negras e escravas. As relações de ódio e violência eram permitidas e, até mesmo, consideradas adequadas, mas o amor era visto como algo repulsivo, a ser escondido e reprimido.

Kindred-Laços de Sangue não é um livro limitado apenas aos Estados Unidos, mas que reflete o mundo na sua totalidade. Ele nos faz refletir sobre a falsa democracia racial que vivenciamos no Brasil, no ano em que completamos 130 anos do fim da escravidão, através da Lei Áurea. Ele suscita questionamentos abolicionistas em um momento em que a escravidão não é mais legalizada, mas amplamente enraizada em nossa cultura.

Kindred-Laços de Sangue é um livro cru, intenso e que deixa de lado a visão romântica da escravidão. Ele nos permite sentir, em sua intensidade, a dor, o medo e os anseios de pessoas que sofreram e que foram deixadas à margem, na nossa sociedade. Dana e Kevin, em sua jornada no universo de Rufus, suscitam questionamentos necessários e fundamentais para que consigamos enxergar o pior da humanidade. Algo que transcende os laços de sangue.  


Classificação: 5 estrelas (💛)

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