[RESENHA] É assim que Acaba


Imagem: Ivonísio Mosca
Eu sempre escutei muito sobre a escritora Colleen Hoover, que é muito famosa pelos seus romances intensos e que arrancam lágrimas dos leitores. Já tive experiência com um dos livros dela, que foi O Lado Feio do Amor (Ugly Love), mas que não havia arrebatado o meu coração. Logo, a leitura de “É assim que Acaba” foi uma grata surpresa, além de ser uma obra necessária para todos os leitores.

A obra vai girar em todo de Lily Bloom, uma jovem de 23 anos, apaixonada por jardinagem, que se muda do Maine para Boston e que abre o seu próprio negócio: uma floricultura diferente que está conquistando os moradores da cidade grande.

O passado de Lily é repleto de cicatrizes e mágoas, principalmente em relação ao seu pai, mas isso não a impede de (tentar) seguir em frente. Após a morte do seu pai, Lily conhece Ryle Kincaid, no alto de um prédio em Boston. Neurocirurgião charmoso e bonito, a atração entre eles é gigantesca, mas nada acontece naquele encontro ocasional. O tempo passa, eles se reencontram e iniciam um relacionamento, que é posto à prova quando Atlas Corrigan, o seu primeiro amor e protetor do passado, reaparece de maneira inesperada na vida de Lily, após tantos anos distante.

O que parece o roteiro de um romance já conhecido e bastante lido nas obras, atualmente, toma formas completamente novas e inesperadas nesse enredo. Lily, Ryle e Atlas levam essa história a um outro patamar, o que me surpreendeu bastante. Afinal, “É assim que Acaba” não é uma simples história de amor, mas um relato pessoal e verdadeiro de um amor que machuca, que corrói e que nos destrói. Ele ilustra a realidade de inúmeras mulheres que têm, no seu grande amor, as pessoas que mais a machucam, por dentro e por fora.
“Imagine todas as pessoas que você conhece ao longo da vida. São muitas. Elas surgem como ondas, entrando e saindo aos poucos, dependendo da maré. Algumas são muito maiores que outras. Às vezes, as ondas trazem coisas lá do fundo do mar e as largam no litoral. Marcas nos grãos de areia que provam que as ondas estiveram lá, muito depois de a maré recuar.”
O livro é dividido em duas partes: uma baseada no passado de Lily, cujo o centro serão os episódios de violência sofridos por sua mãe, enquanto a outra se baseia no relacionamento de Lily e Ryle, nos seus desafios e atos violentos. Atlas é um personagem importante no passado de Lily, mas, no seu presente, ela toma as rédeas da situação para si, de forma que ele se torna um personagem (bem) secundário.

O livro é poderoso e cheio de “verdades nuas e cruas” sobre o que é ver, todos os dias, um relacionamento abusivo e vivenciar na pele um deles. A todo momento, somos confrontados com as reflexões de Lily e as nossas próprias meditações sobre o assunto. O pai de Lily sempre cometeu violência doméstica contra a sua mãe, o que fez de Lily uma garota decidida a nunca encarar o mesmo papel. “Ela não deixaria isso acontecer”.

Ryle demora muito a perceber, a realmente aceitar que ele é violento com Lily, de forma que sempre procura alguma desculpa, buscando assim o seu perdão e dizendo que a ama. O passado de Ryle é complicado, mas, ao longo da trama, vamos nos convencendo de que nada, nem mesmo o nosso passado, é capaz de justificar a violência pratica contra outra pessoa, especialmente a doméstica.

Lily não quer ser igual a sua mãe, mas, ao mesmo tempo, quer acreditar que Ryle não é igual ao seu pai, que todos os fatos violentos aconteceram por acidente. A sensação de que Ryle a ama é verdadeira e isso fará com que nada mais se repita, afinal, ele aprendeu com os seus erros. O que nos faz refletir bastante e enxergar, na situação de Lily, o reflexo da vida de inúmeras mulheres.

Um dos destaques da trama, com toda certeza, é Allysa, irmã de Ryle e melhor amiga de Lily, que se mostrou uma amiga verdadeira. Ela sabia que o irmão amava Lily, mas se o seu amor fosse realmente verdadeiro, ele não deixaria que isso continuasse defendendo assim que Lily não voltasse para a relação com seu irmão/agressor. Assim, nos pequenos gestos, Allysa nos mostra como o apoio, o suporte e alguém que não julgue os atos da mulher em situação de vulnerabilidade são importantes.
“Ciclos existem porque é doloroso acabar com eles. Interromper um padrão familiar é algo que requer uma quantidade astronômica de sofrimento e de coragem. Às vezes, parece mais fácil simplesmente continuar nos mesmos círculos familiares em vez de enfrentar o medo de saltar e talvez não fazer uma boa aterrissagem.” 
Para mim, uma das personagens mais importantes de toda a trama foi a mãe de Lily, que se mostrou uma pessoa muito forte e muito importante para a filha, num momento de tanta dor. Com suas palavras doces e certeiras, ela nos fez refletir sobre os nossos limites, até onde somos capazes de aceitar e de suportar um tapa, um estupro, uma surra pelos nossos filhos e pelo matrimônio. Ela suscita questionamentos sobre o que é estar num relacionamento abusivo, que é repleto de tentativas e recomeços frustrados.

Muitas coisas acontecem ao longo da trama, sendo cada uma fundamental para o seu desfecho e para ajudar Lily a tomar decisões tão sérias e necessárias. É preciso ler a obra de coração e mente aberta, pois só assim sentiremos tudo o que Collen nos propõe. É pessoal, é íntimo, é destruidor, mas também é poderoso.

"É assim que acaba" é uma obra necessária e dolorosa de se ler, principalmente quando encaramos essa realidade, todos os dias, em vários lares. Uma obra sobre o amor em várias formas, em várias intensidades. Um sentimento que nos engrandece, mas também que nos destrói. Um livro que, definitivamente, te deixará com lágrimas nos olhos e forte o bastante para entender e lutar por uma realidade diferente.

Classificação: 5 estrelas (💛)

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