[Crônica] Terraço Laranja


Existem duas cadeiras dispostas lado a lado, no terraço laranja. Elas estão posicionadas em frente ao portão principal, que é cheio de aberturas capazes de nos fazer enxergar o que se passa dentro e fora do terraço. Todos os dias, diversas pessoas passam na frente dessa casa e poucos notam a presença dessas duas cadeiras. Poucos notam a sua presença e ninguém sabe que essas  cadeiras guardam, em si, sonhos e segredos de uma época passada, ainda vívida apenas na mente de quem as viveu.

Enquanto esses dois itens de decoração guardam, em sua essência, recordações do que já se viveu e traz consigo o gosto doce da saudade, as pessoas que passam por elas mal sabem que se encontram diante da história de inúmeros casais que trocaram confidências ali. Da mesma forma, aqueles que por ali sentaram não sabem que os transeuntes ali guardam em si novas histórias, estranhos dilemas e eternos recomeços.

A filha da vizinha de 15 anos que, todos os dias, passa apressada para o colégio descobriu que está grávida do namorado. A moça que anda sempre sorrindo e saudando os vizinhos escolhe usar as roupas de manga longa para esconder as cicatrizes causadas pelo companheiro. O adolescente carrancudo, que sempre usa fone de ouvido e nunca deseja Bom Dia para o casal de idosos com quem mora, escreve versos e estrofes no fim do caderno e quer ser escritor.

As duas cadeiras, que estão dispostas lado a lado no terraço laranja, e nós, eternos transeuntes na vida, temos muito em comum, essa é a verdade. Trazemos conosco inúmeras memórias, profundos segredos e histórias que são, normalmente, desconhecidas ao outro. Guardamo-nos em camadas e apenas demonstramos ao outro o que nos é confortável. Somos, na verdade, eternos desconhecidos diante do outro, pois estamos sempre nos redescobrindo como pessoas.

Somos muitos e, ao mesmo tempo, não queremos ser ninguém, porque conhecer quem nós realmente somos é uma árdua e contínua tarefa. A nossa alma e o nosso coração trazem segredos e cicatrizes que apenas nós somos capazes de decifrar e de compreender totalmente.

Contudo, a partir do momento que aceitamos o desafio de nos conectar e conhecer o outro, ofertamos à nossa alma não só a nossa marca, pois passamos a carregar também um pouquinho do que o outro sente ou é.

Estamos sempre em constante criação e, a partir do momento em que decidimos sentar nas cadeiras e nos conectar com a história do outro, novas histórias são criadas, novas confidências são trocadas e novos recomeços são traçados. A verdade é que não estamos sozinhos, quando nos permitimos conhecer, pois sempre haverá um pouco de mim e um pouco de você. 

6 comentários:

  1. Amei,você escreve muito bem!!!!!!!!!!

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    1. Oi, Lívia,
      Muito obrigada por comentar aqui no Blog. Fico muito feliz mesmo em saber que você gostou da crônica e da forma como escrevo. Beijooooos.
      Bel <3

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  2. Fico feliz em ter sentado na cadeira e conhecido você naquela Bienal.
    Pode parecer exagero, mas foi tão gratificante que já dá saudade.
    Bel, parabéns. De coração. Que texto <3 <3 <3
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Aleeeeee,
      Também foi muito gratificante e inspirador conhecer você, naquela Bienal.Levo nossa amizade no coração. É muito supimpa saber que você gostou do texto. Saudades desde já. Beijos no coração.
      Bel <3

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  3. Olá, tudo bem? Nossa, incrível essa crônica. Arrasou, meus parabéns!

    Beijos,
    Duas Livreiras / Sorteio de 3 KITS

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    1. Oi, Larissa,
      Muito obrigada por visitar aqui o Blog. Fico imensamente feliz em saber que você gostou da crônica. Beijoooos.

      Bel <3

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