[Crônica] Proteger para florescer


Uma das coisas que eu sempre ouvi da minha mãe, ao longo dos meus anos de vida, é que se quisermos que uma coisa nossa vá para frente, devemos mantê-la inicialmente em segredo. Não funciona como algo que você esconde por ser ruim, mas algo que você protege para que possa florescer depois, de forma saudável. Pode parecer superstição, eu sei, mas esse é um dos aprendizados que sempre vou carregar comigo.

Em um mundo dominado pela vida de aparências, tornar público uma conquista, uma aquisição ou um momento da sua vida acaba se tornando uma decisão difícil. Hoje, a grama do outro sempre parece mais verde, a vida do nosso amigo parece mais feliz e estruturada e o nosso vizinho parece ter uma sorte incrível para o amor, enquanto que o que nós passamos a ter se torna apenas um fragmento inexpressivo do que o outro possui.

Dizem que tenho uma alma meio esotérica, mas o que posso fazer se o mundo anda cheio de energias pesadas, de inveja e de uma constante sensação de que temos que ser melhores do que os outros? Não conseguimos, muitas vezes, admitir que a nossa caminhada precisa ser mais árdua do que a do outro, porque tudo que acontece vem sob medida para quem nós somos, não para quem o outro é. Não conseguimos perceber que o outro também atravessou uma série de obstáculos, pois estávamos cegos demais pelo brilho do seu sucesso.

É chegado o momento em que precisamos renovar o espírito, exorcizar as vibrações ruins de inveja e de ciúme pelo que o outro tem ou pelo que o outro é, e vibrar pelo que o outro conquistou com o seu esforço. A partir do momento que nos reconstruímos em crenças, energias e nos esforçamos para atingir os nossos objetivos, independente do que o outro possui ou alcançou, passamos a ser pessoas melhores e a construir um terreno permeado por congratulações verdadeiras.

Precisamos nos inspirar naquilo que é bom e torcer genuinamente pelo crescimento do outro, sem que o nosso lado negativo consiga germinar a semente da ruína e da inveja. Temos um longo caminho a percorrer, pois desconstruir quem nós realmente somos e dar uma chance para a reinvenção do nosso ser é um trabalho árduo. 

Contudo, enquanto percorremos esse caminho de tijolos amarelos, guardemos nossos sonhos dos sentimentos alheios e cultivemos com serenidade e cautela os nossos projetos, pois só assim eles conseguirão germinar, de forma saudável, em um mundo com tantas almas de ervas daninhas. 


Imagem: Rogéria Breves

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